sábado, 13 de junho de 2009

Do Romantismo ao Concretismo

Conheça as escolas literárias brasileiras
Cada romance, conto ou poema é uma criação artística única, que expressa a subjetividade de seu autor. Mas conhecer os movimentos literários a que estão ligados os escritores permite ampliar a compreensão sobre seus livros

Ler os livros de bons autores é, além de um grande prazer, indispensável para conhecer a literatura de qualquer país. As resenhas e os comentários de obras brasileiras e portuguesas, presentes neste site, auxiliam o entendimento sobre o significado das criações, mas não dispensam sua leitura.
Qualquer obra de arte pode ser considerada única, pois expressa a subjetividade de seu autor. Mas, para ampliar a compreensão do significado e do alcance de romances, contos ou poemas, é necessário também levar em conta que as obras surgem em determinada situação histórica e estão impregnadas pelo ambiente social, econômico e político em que vive ou viveu seu criador. Podem ser encontrados traços comuns em diferentes obras, de escritores diversos, provenientes do mesmo período.


É por isso que os estudiosos dividem as obras de acordo com as escolas literárias nas quais elas podem ser inseridas. Além de facilitar o aprendizado das modificações da cultura no decorrer dos séculos, essa divisão em períodos pode acrescentar novos elementos à compreensão de cada livro em particular.

INÍCIO DA LITERATURA BRASILEIRA
No Brasil, colônia de Portugal entre o século XVI e o início do XIX, as primeiras criações literárias são consideradas parte da literatura portuguesa. O professor Antonio Candido, um dos mais respeitados estudiosos do país, considera que a literatura nacional teve início de fato no século XVIII, com o arcadismo, movimento que exaltava ideais neoclássicos, inspirados na Antiguidade greco-romana.
É claro que, antes disso, foram escritos muitos textos literários no Brasil, mas eram manifestações esparsas e limitadas, sem que houvesse uma sistemática atividade que envolvesse criadores e seu público. Isso só começou com os poetas árcades.

ROMANTISMO
Com o romantismo, desenvolve-se e amplia-se a criação literária nacional. Os ideais românticos, nascidos na Europa no fim do século XVIII, espalharam-se pelo mundo por meio dos artistas franceses. A liberdade conquistada na Revolução Francesa teve influência determinante nas características do movimento. Era a libertação da poética neoclássica e a passagem para uma linguagem mais espontânea, carregada de emoções.


Foi com Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, que nasceu o romantismo no Brasil, em 1836. Seus autores expressavam, no plano literário, a busca por uma identidade nacional, num país que se tornara formalmente independente de Portugal pouco tempo antes.


Entre as principais características do romantismo estão: subjetivismo, valorização das emoções e das paixões, liberdade de criação, desejo de igualdade e nacionalismo. Um de seus principais escritores foi José de Alencar, autor de Iracema, O Guarani, Senhora e Lucíola.


A poesia romântica comportou diversos temas. Inicialmente, era forte a vertente nacionalista ou indianista. Os principais escritores desse período foram Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias, considerado o primeiro grande poeta do romantismo no país. Destacam-se a exaltação à natureza, o sentimentalismo, a representação da figura do índio como um ser idealizado e o nacionalismo.
A poesia considerada ultra-romântica é representada por autores como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. As obras ainda eram carregadas de sentimentalismo, mas tinham elementos diferentes, como a exaltação do “eu” e temas como morte, tristeza e solidão.


A adesão ao movimento pela abolição dos escravos de muitos escritores românticos deu origem ao movimento mocondoreiro, influenciado pela poesia social do francês Victor Hugo. Destaca-se o baiano Castro Alves. O nome condoreiro vem de condor, pássaro de vôo mais alto das Américas, que era o símbolo do movimento, pois dava a idéia de grandiosidade.

NATURALISMO/REALISMO
O início do naturalismo/realismo é marcado por duas obras, ambas de 1881: O Mulato, de Aluísio de Azevedo, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.


O fim do século XIX foi marcado por grandes transformações no Brasil. A monarquia entrou em decadência, foi aprovada a Lei Áurea, que aboliu a escravatura, e a economia – principalmente o café – se voltou para o mercado externo. O surgimento do naturalismo e do realismo deve ser entendido nesse contexto.


A ênfase nas emoções dá lugar a abordagens que procuram a objetividade. Os temas são também mais polêmicos, como as críticas à Igreja Católica e à burguesia.


Naturalismo e realismo costumam ser apresentados juntos, porque surgiram no mesmo período histórico e possuem muitos elementos comuns. Suas obras têm como características o objetivismo, universalismo e materialismo. A literatura passa a focalizar temas e personagens ligados à realidade da época, ou seja, apresenta-se como expressão do real.


Na literatura naturalista, há uma presença maior do determinismo – linha de pensamento desenvolvida pelo filósofo francês Hippolyte Taine –, segundo o qual o homem é determinado pelo meio em que vive, pela sua raça (estágio de sua evolução física) e pelo momento histórico. Os romances naturalistas mostram personagens cujo destino é determinado por esses elementos, e a narrativa assume um caráter de tese científica. O principal autor dessa escola, no Brasil, foi o maranhense Aluísio de Azevedo, que escreveu, além da obra citada, O Cortiço, Casa de Pensão e outras histórias em que a tragédia e a fatalidade apareciam como decorrência direta das situações nas quais viviam os personagens.

SIMBOLISMO E PRÉ-MODERNISMO
Os livros Missal e Broquéis, de Cruz e Sousa, ambos de 1893, marcam o surgimento do simbolismo no Brasil. Fortemente influenciado pela literatura de autores como os franceses Baudelaire e Verlaine, esse movimento levava mais longe o subjetivismo já cultivado pelos românticos. Enfatizava os elementos sensíveis e a preocupação com a arte pela arte, sem sua vinculação direta com a situação social e política. Os poemas simbolistas movem-se num mundo abstrato, construído por meio de imagens simbólicas.


No começo do século XX, já no período republicano, o Brasil viveu episódios como a revolta de Canudos, na Bahia, o ciclo do cangaço, no Nordeste, e o ciclo da borracha, na Amazônia. Era o tempo da “república do café-com-leite” (união das oligarquias paulistas e mineiras para dividir o poder) e das primeiras mobilizações amplas e greves de operários em São Paulo. A literatura sofre os efeitos dessas mudanças e passa a buscar um registro mais afinado com os novos tempos.


Nesse período, surgem autores que, ainda sem todas as características renovadoras do modernismo, já não fazem a mesma literatura de antes. São os precursores dos modernistas que viriam logo a seguir.


A preocupação científica se mantém forte em várias obras desse período, bem como a importância de temas regionais ou que buscam entender o Brasil de forma mais profunda. Na poesia, a referência é Augusto dos Anjos, que, com um único livro, Eu, atraiu interesse para sua estranha obra. Na prosa, Euclides da Cunha marca esse período de transição com Os Sertões, de 1902.


Outro autor que traz à tona aspectos pré-modernistas é Lima Barreto, autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Monteiro Lobato, lembrado principalmente por suas contribuições à literatura infantil, focaliza em suas obras adultas temas regionais, principalmente relacionados ao Vale do Paraíba
e ao interior de São Paulo.

MODERNISMO
A Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, é considerada o marco do modernismo no Brasil. Um dos objetivos principais desse movimento era dar uma identidade nacional às artes. Isso não excluía as contribuições vindas de fora, já que os modernistas trouxeram da Europa influências estéticas de movimentos de vanguarda como o expressionismo, o cubismo, o futurismo e o surrealismo.


Num mundo conturbado pela I Guerra Mundial (1914-1918) e pela Revolução Russa (1917), o Brasil vivia um período de modernização das principais cidades. Entre os escritores da primeira fase modernista destacam-se Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Alcântara Machado.


Mario de Andrade publicou, em 1922, Paulicéia Desvairada, no qual criticava o provincianismo de São Paulo. Oswald de Andrade escreveu poesia e prosa, tendo sido ainda o autor de dois textos fundamentais do modernismo brasileiro: o Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) e o Manifesto Antropófago (1928). Bandeira, de início influenciado pelo simbolismo, publicou, em 1930, Libertinagem, sua primeira obra plenamente modernista.

FASE REGIONALISTA
O segundo período do modernismo é a fase regionalista, cujas principais obras surgiram entre 1930 e 1945. O desejo de conhecer o Brasil a fundo levou os escritores a debruçarem-se sobre as transformações de um país que era ainda basicamente agrário e atrasado.


Eles incorporavam o coloquialismo dos modernistas de 1922, mas as experiências formais não eram determinantes. Os autores regionalistas queriam expressar a vivência do povo dos locais mais remotos do país, num registro em que a denúncia social caminhava com a criação literária.
Em 1930, a jovem Rachel de Queiroz publicou O Quinze, que tem como pano de fundo a miséria causada pela grande seca nordestina de 1915. Entre outros escritores importantes desse período, destacam-se José Lins do Rego, que iniciou em 1932 o ciclo da cana-de-açúcar, ao publicar Menino de Engenho, e Graciliano Ramos, que escreveu Vidas Secas, obra considerada referência do movimento. Erico Verissimo, autor gaúcho, tem também seu lado regionalista, com o monumental O Tempo e o Vento.

DRUMMOND, CABRAL E ROSA
O modernismo, como movimento renovador, não existia mais nos anos 1940, mas continuava a ser forte referência para os artistas. Na poesia, destacam-se dois autores: Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Drummond, que participara, em Minas Gerais, do movimento modernista, atinge nessa época a maturidade artística. João Cabral, com sua poesia cerebral e cuidadosamente pensada, leva adiante as preocupações com a palavra e a expressão artística literária num momento de crise como foi o período do pós-guerra.


As inovações lingüísticas e formais se desenvolvem também na prosa. Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, não se limita a traçar um retrato das populações sofridas, como os autores regionalistas. Suas experimentações, como a criação de palavras, que tornam único o modo como se expressam seus personagens, correspondem a inquietações artísticas mais profundas, sintonizadas com os grandes autores do século XX em todo o mundo.

CONCRETISMO
O último movimento literário significativo do século XX foi o concretismo, cujo marco é simbolizado pela Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, em 1956.
No entanto, seus principais autores – Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari – já editavam havia alguns anos a revista Noigandres, em que elaboraram a nova estética.


O concretismo é marcado pela abolição dos versos e pela utilização de recursos gráficos como parte da própria composição literária. O poema concretista leva em conta não apenas a disposição espacial das palavras, como também o tipo de desenho das letras, as cores empregadas, desenhos, fotografias e outros elementos visuais. O objetivo era revitalizar a invenção poética, com a rejeição das formas tradicionais do verso.

CRIAÇÕES RECENTES
A produção literária mais recente apresenta enormes variações de temas e procedimentos. Durante a ditadura militar (1964-1985), tiveram peso as questões ligadas à falta de liberdade no país. De lá para cá, cresceram de importância os elementos relativos às mudanças no Brasil, como a industrialização. Alguns temas significativos são o vazio da vida urbana e o cotidiano nas grandes metrópoles. Há muitos autores contemporâneos expressivos. A paulistana Lygia Fagundes Telles fez sua estréia, ainda adolescente, na década de 1930, mas alcançou maior destaque com As Meninas, de 1973. Rubem Fonseca, de estilo irônico, destaca-se na criação de contos de temática urbana e violenta.

O Crime do Padre Amaro

- resumo e análise da obra de Eça de Queiroz
Nesse romance, de sua fase mais influenciada pelo naturalismo, Eça de Queirós ataca a corrupção do clero e a hipocrisia da média burguesia portuguesa, questionando seus valores morais

Publicado pela primeira vez em 1875, O Crime do Padre Amaro denuncia a corrupção dos padres, que manipulam a população em favor da elite, e a questão do celibato clerical. É com esse livro que Eça de Queirós inaugura, na prosa, a estética do realismo-naturalismo em Portugal. A obra caracteriza-se pelo combate ao idealismo romântico que se estabelecia até então, em prol de uma visão mais crítica da sociedade. Sua versão definitiva foi publicada em 1880.

ROMANCE DE TESE
O Crime do Padre Amaro é o primeiro romance de Eça. Em vez da subjetividade romântica, os autores do realismo-naturalismo, como o próprio nome da escola literária indica, buscavam retratar a realidade de forma objetiva.


Naquela época (segunda metade do século XIX), o Ocidente vivia um período de grandes transformações, com a Segunda Revolução Industrial. O cientificismo passou a predominar, com novas correntes filosóficas e teorias, entre as quais o positivismo de Comte, o determinismo de Taine, o evolucionismo de Darwin e o socialismo científico de Marx e Engels. Essa perspectiva racionalista e materialista leva os intelectuais a estudar o impacto social da industrialização e do liberalismo.



Passam a ser discutidas as desigualdades que essas mudanças trouxeram para a sociedade, como o surgimento de uma nova classe que é oprimida pela burguesia: o proletariado.


Daí a substituição do romance de entretenimento pelo romance de tese, que visa a descrever e a explicar os problemas sociais sob a luz das novas idéias. Neles há a crítica, muitas vezes feroz, às instituições que servem de base para a sociedade burguesa, como o Estado, a Igreja e a família.
Portugal, que muito tempo antes havia deixado de acompanhar o progresso de outras nações européias, passa nesse momento a servir de palco para a mobilização de jovens que ansiavam por mudanças radicais. É nesse contexto que Eça de Queirós começa a se destacar. Em sua fase realista-naturalista, inspirado pelos franceses Gustave Flaubert e Émile Zola, escreve romances como O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, que buscam atacar a corrupção do clero e a hipocrisia da média burguesia portuguesa.

NARRADOR
A narrativa é em terceira pessoa e o narrador tem onisciência, ou seja, conta a história com conhecimento dos pensamentos e das ações dos personagens. Isso facilita o processo de distanciamento entre o autor e a obra. Apesar disso, é possível perceber a antipatia que Eça sente por vários dos tipos retratados, em especial os padres e as beatas, por causa da ironia e dos adjetivos rudes, muitas vezes grosseiros, que utiliza em suas descrições. Isso é revelador de uma postura anticlerical, comum entre os escritores realistas.

TEMPO E ESPAÇO
A maior parte da narrativa concentra-se em uma província chamada Leiria, sede do bispado para onde o padre Amaro consegue transferência. O tempo compreende os anos de 1860 a 1870, aproximadamente, e se desenvolve de forma cronológica, linear, com eventuais voltas ao passado, quando o autor, após apresentar alguns dos personagens, conta a história de Amaro e de como ele se tornou padre.

ENREDO
Após perder os pais, que serviram à marquesa de Alegros, Amaro cai nas graças da mulher, que o toma como agregado, planejando criá-lo para o sacerdócio. Isso acaba se efetivando, apesar da ausência de vocação e de interesse do jovem, que, desde cedo, possuía uma índole libidinosa. Triste e resignado, Amaro se ordena padre, sempre tentando conter os fortes impulsos sexuais que sente.
Embora temesse a Deus e fosse devoto, odeia a vida eclesiástica que lhe fora imposta. Depois de exercer seu ofício em uma província interiorana, consegue, por influência da condessa de Ribamar – filha de sua protetora, a marquesa –, mudar-se para Leiria.


Nesse ponto, Eça descreve como os interesses do clero estão atrelados aos interesses políticos. É o marido da condessa quem intervém junto a um ministro para solicitar ao bispo a transferência de Amaro, apesar de sua pouca idade, para a sede do bispado.


Em Leiria, o jovem padre aceita a sugestão do cônego Dias para morar em um quarto alugado na casa da senhora Joaneira – com quem Dias mantinha um caso –, auxiliando, em troca, nas despesas da casa. O quarto de Amaro fica exatamente embaixo do de Amélia, filha da dona da casa. Já no primeiro contato, Amaro e Amélia sentem forte atração mútua, que se desenvolve aos poucos e provoca o desinteresse da moça por João Eduardo, de quem era noiva.


O fato que desencadeia a ofensiva de Amaro sobre Amélia é algo que o jovem padre presencia: certo dia, ao chegar à residência da senhora Joaneira, encontra-a na cama com o cônego Dias. A partir daí, apesar de ter mudado de casa, Amaro vai perdendo os escrúpulos e se deixa levar pela atração sexual, seguindo o exemplo de seu antigo mestre.
O autor, além da crítica feroz que desfere contra o clero, toca também em outro tabu da época: a sexualidade.


É comum que os escritores vinculados à corrente naturalista, como era Eça na época em que escreveu esse romance, dêem ênfase ao erotismo que domina os personagens. Isso faz parte de sua caracterização, como apregoa o determinismo de Taine, segundo o qual os seres humanos são submetidos ao condicionamento pela herança, pelo meio social e pelo contexto histórico, que regem seu comportamento. Isso significa que, embora os personagens tentem, num primeiro momento, se prender a um padrão moral mediado pela consciência, acabam agindo pelos impulsos naturais de sobrevivência da espécie, principalmente o desejo sexual.


João Eduardo, enciumado, publica anonimamente no jornal local um artigo em que denuncia a imoralidade de alguns padres de Leiria, especialmente de Amaro. Esse fica indignado e passa a evitar Amélia — pensa até mesmo em abandonar o sacerdócio. No entanto, os padres descobrem o autor do texto polêmico e levam João Eduardo a deixar a cidade.

GRAVIDEZ E MORTE
É nesse momento que, no auge do desejo, Amaro e Amélia trocam o primeiro beijo. Para facilitar a sedução, Amaro se torna o confessor de Amélia, o que revolta João Eduardo, levando-o a dar um soco no pároco na rua. Após retirar a queixa contra seu agressor e ser visto como um santo pelas beatas (entre as quais Amélia), Amaro conduz a jovem para seu quarto e os dois têm a primeira relação sexual.


A nova criada do padre, Dionísia, alerta para o perigo dessa exposição e lhe recomenda que ache um local secreto para os encontros amorosos. A solução é a casa do sineiro da igreja, o Tio Esguelhas, deficiente que vive com uma filha, Antônia, a Totó. A desculpa para os encontros é a preparação de Amélia para se tornar freira e também ler textos religiosos a Totó.


O fascínio que Amaro exerce sobre Amélia é cada vez maior, até que ela começa a ter crises de consciência. A pedido da senhora Joaneira, o cônego Dias investiga o caso e fica sabendo, por meio de Totó, o que ocorria entre seu pupilo e a moça. Após uma discussão e trocas de acusações entre os dois, porém, o cônego e o padre passam a se tratar como sogro e genro.


Amélia então engravida, o que leva Amaro ao desespero. Com o cônego Dias, decidem casá-la com João Eduardo quanto antes. Ela se revolta com a idéia, mas acaba aceitando, o que faz com que o padre amante sinta ciúme. Para consolá-lo, decidem, então, continuar os encontros amorosos após o casamento.


O ex-noivo de Amélia, contudo, não é encontrado, o que os leva a buscar outra solução, já que fica cada vez mais difícil ocultar a gravidez. A histeria da moça aumenta, até que optam por enviá-la ao subúrbio para cuidar de dona Josefa, beata enferma irmã do cônego, enquanto os outros passam uma temporada na praia.


Entristecida por se separar da mãe e pelo abandono de Amaro, que permanece em Leiria, Amélia fica angustiada e entra em profunda crise. A situação é agravada pela censura de dona Josefa. A jovem encontra consolo então no bom abade Ferrão, um dos poucos personagens apresentados como íntegros na narrativa. Ele ouve a confissão de Amélia e a aconselha a superar a atração que ainda sente pelo padre. Amaro, ao saber disso, cego de desejo e ciúme, procura mais uma vez Amélia, que não resiste e se entrega novamente. O abade, por outro lado, tenta inutilmente unir a moça com o reaparecido João Eduardo, ainda apaixonado por ela.


O momento do parto se aproxima, e Amaro é aconselhado por Dionísia a enviar o bebê a uma “tecedeira de anjos”, mulher que mata recém-nascidos indesejados. Nasce a criança, que o pai leva à ama encarregada de fazer com que desapareça, em troca de pagamento.


Amélia não resiste e, pouco tempo depois, sofre de convulsões e morre. Amaro, triste por causa da morte da amante, tenta recuperar o filho, mas é tarde. A criança já havia sido morta. Traumatizado, ele sai de Leiria e é transferido. Em Lisboa, buscando de novo a ajuda do conde de Ribamar, reencontra o cônego Dias. Ambos concluem que o remorso sentido pelo caso havia sido superado. Afinal, “tudo passa”.

"Os Sertões" desvenda a Guerra de Canudos

Roberto Ventura
especial para a Folha de S.Paulo
Para conhecer a obra-prima de Euclydes da Cunha, nada melhor do que começar pelo próprio livro, cujo centenário de publicação será comemorado em 2 de dezembro. Euclydes da Cunha (1866-1909) acusa, em "Os Sertões", o Exército, a igreja e o governo pela destruição de Canudos, na Bahia, e denuncia a chacina dos prisioneiros, que haviam se rendido com garantias de vida.

Sua narrativa da guerra, que cobriu de agosto a outubro de 1897 como repórter do jornal "O Estado de S. Paulo", é precedida por um estudo da natureza e do homem do sertão e pela biografia de Antônio Conselheiro, o líder da comunidade. Traz ainda desenhos de paisagens, mapas geológicos, botânicos e geográficos, inspirados nas viagens de exploração científica, além de fotografias do conflito, tiradas por Flávio de Barros.

Quem se sentir desanimado pela extensão e pela densidade das duas primeiras partes, "A Terra" e "O Homem", pode começar pela terceira, "A Luta", na qual é abordada a campanha militar, e depois voltar aos capítulos iniciais, que esclarecem as razões do conflito e trazem uma linguagem rítmica e poética, que tem sido admirada e comentada. É particularmente dramática a parte final, "Últimos Dias", em que o autor relata a rendição de mulheres, velhos e crianças e os combates que culminaram, em 5 de outubro de 1897, com a tomada do povoado, que foi reduzido a cinzas.

Há duas edições de "Os Sertões" que recomendo: 1ª) a crítica de Walnice Nogueira Galvão (Ática, R$ 39,90), que compara o texto definitivo às três primeiras edições e traz cronologia da vida e da obra do escritor; 2ª) a anotada de Leopoldo Bernucci (Ateliê, R$ 64), que traz ensaio sobre o livro, dados biográficos e ótimas notas sobre vocabulário, história e geografia.

Existem também as edições da Record (R$ 21), da Martin Claret (R$ 13,90), da Itatiaia (R$ 30) e da Francisco Alves (esgotada a edição), que têm preços mais acessíveis. É possível fazer download do livro e de outras obras do autor nos sites Berrante Online, Casa Euclidiana, Euclides da Cunha e EUCLIDESite. Mas é preciso coragem para atravessar suas centenas de páginas grudado na tela do micro. Depois de percorrer "Os Sertões", o leitor poderá seguir, ao lado, os passos de iniciação no universo euclidiano.

*Roberto Ventura, 45, é professor de teoria literária na USP e autor de "Folha Explica Casa-Grande & Senzala" (Publifolha) e "Folha Explica Os Sertões" (Publifolha, no prelo).

Modernismo traz renovação à poesia

Thaís Nicoleti
Especial para a Folha de S. Paulo
Muito se tem falado sobre o processo de inovação desencadeado pelo primeiro tempo da poesia modernista. É bom que se tenha em mente que o que foi produzido no momento subseqüente ao da Semana de Arte Moderna de 1922 é uma espécie de matriz do que viria a ser a poesia contemporânea.

Não se trata aqui de dizer, sob o risco da simplificação, que, desde aquela época, a poesia não incorporou outros valores expressivos. O que é preciso lembrar é que foi naquele período que o próprio conceito de lirismo sofreu profundas modificações.

A dessacralização do objeto poético foi certamente uma delas, talvez a principal. Tudo passou a ser matéria da poesia. Uma sensibilidade permeada pelo intelecto e a consciência explícita dos processos de criação literária fizeram da poesia modernista um espaço de discussão de temas pertinentes ao próprio fazer poético. A título de exemplo, lembremos poemas como "Poética" ("Estou farto do lirismo comedido..."), de Manuel Bandeira, verdadeira "carta-programa" do modernismo, ao lado das paródias de textos do romantismo e da literatura informativa sobre o Brasil, dos poemas-piada de Oswald de Andrade etc.

A própria língua portuguesa, ferramenta básica da criação literária, foi tema de reflexão. Os conhecidos versos de "Pronominais" ("Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido/ Mas o bom negro e o bom branco/ Da Nação Brasileira/ Dizem todos os dias/ Deixa disso camarada/ Me dá um cigarro"), de Oswald de Andrade, já discutiam à época um problema até hoje não resolvido pela gramática -pelo menos por sua vertente mais tradicional.

Na linguagem oral, a colocação do pronome átono no início do período ("Me dá um cigarro") é natural entre os falantes brasileiros do português. As gramáticas tradicionais, entretanto, ainda não incorporaram essa peculiaridade. Os modernistas, a propósito de aproximar a poesia da fala e de valorizar a arte como fator de identidade cultural, num momento de grande efervescência crítica, procuraram perceber essas idiossincrasias da dicção brasileira e agregá-las à literatura.

Na leitura de "Amar: Verbo Intransitivo", de Mário de Andrade, é experimentada essa "língua brasileira". Os pronomes átonos, por exemplo, aparecem no início das frases, em franca atitude de rebeldia antiacadêmica.

Os valores da cultura acadêmica, de modo geral, são questionados. Permeia o modernismo um espírito de renovação voltado para o encontro de nossas raízes.

Aprenda a identificar as figuras do barroco literário

Thaís Nicoleti de Camargo*
Especial para a Folha de S. Paulo
O barroco literário é normalmente identificado com a predominância de certas figuras de linguagem nos textos. As célebres antíteses e os paradoxos, além de inversões sintáticas, anadiploses, quiasmos etc., caracterizam a literatura do Seiscentismo. O uso de todos esses recursos, no entanto, obedece a um objetivo prévio, conforme com uma atitude própria dos escritores da época.

Essa atitude consiste na busca da agudeza, termo usado à larga no período barroco. Pode-se dizer que a agudeza é a manifestação de uma inteligência vivaz. Consiste em dizer algo que, como resultado de processos engenhosos, sobrepuja o mero raciocínio lógico.

No raciocínio agudo, atuam em conjunto três, por assim dizer, capacidades: o engenho, o artifício e a concordância. O engenho não se satisfaz com uma boa e evidente conexão silogística. Conquanto esta seja necessária, o engenho está em descobrir algo de raro e artificioso na relação entre duas coisas. O silogismo apresenta relações, de certa forma, naturais; o engenho é mais do que isso. Ele produz uma realização artística; produz, portanto, um prazer estético. O princípio da concordância é o que assegura a lógica da relação entre termos extremos, opostos.

Um bom exemplo desse "modus operandi" está no conhecido poema de Gregório de Matos Guerra, o soneto "Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,/ Da vossa alta clemência me despido;/ Porque, quanto mais tenho delinqüido,/ Vos tenho a perdoar mais empenhado.// Se basta a vos irar tanto pecado,/ A abrandar-vos sobeja um só gemido:/ Que a mesma culpa, que vos há ofendido,/ Vos tem para o perdão lisonjeado.// Se uma ovelha perdida e já cobrada/ Glória tal e prazer tão repentino/ Vos deu, como afirmais na sacra história,// Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,/ Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,/ Perder na vossa ovelha a vossa glória".

Convém observar que o poeta fez um achado. Pede perdão a Deus de forma absolutamente engenhosa: ele pecou para dar a Deus a oportunidade de provar a bondade; se não houvesse o pecado, como Deus poderia perdoar e, assim, revelar Sua imensa bondade? O pecado, segundo esse arrazoado, favorece a Deus, que se engrandece no perdão. O raciocínio é baseado na parábola da ovelha desgarrada.

A idéia, do ponto de vista formal, desenvolve-se numa linguagem rebuscada, igualmente engenhosa, como comprovam as inversões sintáticas, as rimas, os recursos lingüísticos.

Dessa organização estrutural e da sagacidade do poeta resulta a agudeza barroca.
*Thaís Nicoleti de Camargo, autora dos livros "Redação Linha a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula" (Manole), é colunista da Folha Online e do site gazetaweb.globo.com/ @ - thaisncamargo@uol.com.br