segunda-feira, 27 de abril de 2009

Teoria da evolução: 150 anos

Primeira apresentação pública dos textos de Darwin e Wallace
Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução


Wallace descobriu a seleção natural ao mesmo tempo que Darwin
Há 150 anos vinha a público uma idéia que revolucionou os estudos biológicos e modificou radicalmente a visão que o ser humano tinha de si mesmo. Em 1º de julho de 1858, na Sociedade Lineana de Londres, um grupo de naturalistas ouviu a leitura dos textos de autoria do galês Alfred Russel Wallace e do inglês Charles Robert Darwin, nos quais se lançavam os princípios da teoria da evolução.

Na verdade, só no ano seguinte, quando Darwin publicou o livro "Origem das Espécies", a teoria evolucionista - que também se tornou conhecida como darwinismo - produziu todo seu impacto. Entre suas implicações, encontrava-se o questionamento da atuação divina na criação das espécies. A idéia de criação era substituída pela de evolução, regida pelo princípio da seleção natural. Nascia uma polêmica que ainda não se encontra encerrada: evolucionistas e criacionistas continuam a se enfrentar - com maior ou menos afinco - até os dias de hoje.

No entanto, o episódio da leitura dos textos de Darwin e Wallace em 1858 é importante não somente por antecipar a revolução evolucionista, mas também por revelar um aspecto profundamente humano da produção do conhecimento científico. De certo modo, a leitura aconteceu naquela data para garantir a Darwin - que há 20 anos elaborava o evolucionismo - o papel de protagonista na formulação dessa teoria.

Descoberta de Wallace
Em fevereiro de 1858, durante uma jornada de pesquisa nas ilhas Molucas, Indonésia, Wallace descobriu a seleção natural e passou suas idéias para o papel. A seguir, resolveu enviar o manuscrito de sua descoberta para Darwin, naturalista a quem admirava e com quem já havia trocado correspondência. Juntamente com esse texto, seguia uma carta pessoal em que ele pedia ao colega uma avaliação do mérito de sua teoria, bem como o encaminhamento da tese ao geólogo Charles Lyell, um proeminente cientista da época.

Para Darwin, tratava-se de uma surpresa nada agradável. Wallace lhe apresentava uma teoria praticamente idêntica àquela em que o próprio Darwin vinha trabalhando há duas décadas, com grande sigilo, pois estava certo do potencial de polêmica e até de escândalo que ela trazia em si embutida. Desse modo, Darwin passava pelo pior pesadelo de um cientista, a de ter perdido a precedência no descobrimento. Afinal, para a ciência, não importa que Darwin estivesse trabalhando durante 20 anos: o crédito da descoberta seria de quem a publicasse primeiro.

"Toda a minha originalidade será esmagada", escreveu Darwin numa carta a seu amigo Charles Lyell. Para evitar que isso acontecesse, Lyell e o botânico Joseph Hooker - também amigo de Darwin, além de homem influente no mundo científico - propuseram que os trabalhos fossem apresentados simultaneamente à Sociedade Lineana, o mais importante centro de estudos de história natural da Grã-Bretanha, como aconteceu a 1º de julho.

Originalidade darwiniana
Vale a pena registrar que os dois estudiosos não puderam comparecer ao prédio da Sociedade, em Burlington House, Piccadilly, no centro de Londres. Darwin acabara de perder seu filho mais novo, que morrera de escarlatina dois dias antes. Já Wallace continuava suas pesquisas, agora na Nova Guiné, e até então não tinha sequer recebido uma resposta à carta que enviara a Darwin. Isso só aconteceria alguns cerca de três meses mais tarde, período que uma correspondência levava para chegar da capital do Império britânico à Oceania.

É importante ressaltar que não faltam documentos ou provas de que Darwin fez a sua descoberta antes de receber as informações de Wallace. Tudo, por incrível que pareça, não passou de uma imensa coincidência ("Nunca vi coincidência tão impressionante", disse Darwin na carta que enviou a Lyell). Portando-se como legítimo cavalheiro britânico, Darwin dividiu as honras da descoberta com Wallace que, por sua vez, lhe cedeu a primazia na publicação de "Origem das Espécies".

A história, porém, não foi tão gentil com Alfred Russel Wallace: poucos sabem quem ele é hoje em dia, ao passo que o nome de Darwin se tornou célebre como o de um dos maiores cientistas de todos os tempos. 2009 será comemorado como "ano de Darwin" para lembrar o bicentenário de nascimento do naturalista, assim como os 150 anos de publicação de sua obra fundamental.

Rio Amazonas


Encontro do Negro com o Solimões (cor marrom) para formar o Amazonas. Ao centro, em branco, Manaus
Nasa/Divulgação



O mais extenso do mundo, segundo nova medição
Manuela Martinez*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação


Em meio às freqüentes notícias de devastação de florestas e conflitos envolvendo fazendeiros e indígenas, a Amazônia recebeu, depois de 16 anos de pesquisas, cientistas do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, informaram que o rio Amazonas é o mais extenso do mundo, superando o Nilo, no Egito, em 140 quilômetros.

Durante muitas décadas, os livros de geografia informaram que o rio Amazonas, que nasce na Cordilheira dos Andes (Peru), tinha 6.400 km, contra 6.650 km do Nilo, um dos mais famosos e conhecidos rios do mundo.

Depois de analisarem imagens de satélite e de uma pesquisa feita na cordilheira dos Andes, os cientistas do Inpe anunciaram que o Amazonas é bem maior - a diferença foi de 592 km, um pouco mais do que a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Portanto, segundo o Inpe, o rio Amazonas possui, na realidade, uma extensão de 6.992 km.

Para efeitos de comparação, os mesmos critérios utilizados na medição do Amazonas também foram utilizados no Nilo. O resultado revelou que o Nilo, rio que exerceu um papel preponderante no desenvolvimento do Antigo Egito, também é maior do que se supunha - possui 6.852 km, ante os 6.650 km publicados pelos livros de geografia e história. O Nilo atravessa três países do continente africano: Egito, Sudão e Uganda.

Os rios mais extensos do mundo

Amazonas - Brasil - 6.992 km

Nilo - Egito - 6.852 km

Yang Tsé - China - 6.380 km

Mississipi-Missouri - Estados Unidos - 6.270 km

Yensei - Rússia - 5.550 km

O trabalho desenvolvido pelos cientistas do Inpe já foi reconhecido por duas entidades sul-americanas: o Instituto Nacional Geográfico do Peru e a Agência Nacional de Águas. O estudo será apresentado oficialmente à comunidade científica, durante o Simpósio Latino-Americano de Sensoriamento Remoto.

O Inpe também vai enviar a conclusão dos estudos à Royal Geographical Society e à National Geographic Society, entidades responsáveis pela primeira medição dos rios Amazonas e Nilo.

Curiosidades
Além de ser o mais extenso e o mais caudaloso rio do mundo, o Amazonas pode ser traduzido por outros grandes números: sua profundidade máxima é de 100 metros, o que equivale a um edifício de 33 andares. O volume de água que despeja no mar é de 200 mil metros cúbicos por segundo e o seu trecho de maior largura possui 50 km.

Depois do Amazonas e do Nilo, os três maiores rios do mundo são o Yang-Tse, na China, com 6.380 km, o Mississipi-Missouri, nos Estados Unidos, com 6.270 km e o Yenisei, na Rússia, com 5.550 km.

As extensões dos três rios, dependendo de alguns livros, podem sofrer pequenas alterações, mas as posições no ranking permanecem inalteradas. Na outra ponta da lista, o rio Citarum, próximo a Jacarta, capital da Indonésia, é considerado pelos especialistas como o mais poluído do mundo.

Na lista dos mais poluídos também consta o Tietê, que corta São Paulo. No entanto, a exemplo do que aconteceu com o governo da Inglaterra, que recuperou o rio Tâmisa e o transformou em atração turística, nos últimos anos o poder público de São Paulo vem investindo para melhorar as condições fluviais do Tietê.

Além da poluição, os organismos internacionais também apontam três outros fatores que têm contribuído para a "morte" de muitos rios: as mudanças climáticas, o desenvolvimento e a retirada exagerada de água.

São Francisco
No Brasil, um projeto polêmico envolvendo um rio está em execução. As obras de transposição do rio São Francisco, que nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais, e corta o Nordeste, numa extensão de 2.800 km, foram iniciadas, a um custo estimado de mais de R$ 3 bilhões.

O projeto consiste na transferência de parte das águas do rio para abastecer pequenos rios e açudes da região que possuem déficit hídrico durante os períodos de estiagem. De acordo com os especialistas, os Estados mais beneficiados com a transposição são a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará.
*Manuela Martinez é jornalista e publicitária.

Descriminalizar é o melhor caminho?

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação


Até agora a proibição se mostrou ineficiente. A descriminalizacão pode ser a solução?
Em sua primeira visita oficial ao México, em março deste ano, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, admitiu que a política antidrogas dos Estados Unidos não surtiu o efeito esperado. Ou seja, que a estratégia repressiva vem sendo ineficaz para conter o consumo e o avanço da violência e corrupção causadas pelo tráfico internacional de drogas.

No mundo todo, estima-se que 208 milhões de pessoas, ou cerca de 5% da população adulta, usem algum tipo de substância ilícita. A maconha é a droga proibida mais consumida, com 160 milhões de usuários no planeta, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas).

A indústria do tráfico movimenta aproximadamente US$ 320 bilhões por ano (R$ 700 bilhões, valor superior ao PIB [Produto Interno Bruto] individual de quase 90% dos países). O crime organizado corrompe governos, empresários, juízes e policiais, além de cometer delitos paralelos ao tráfico, como lavagem de dinheiro de contrabando de armas.

Porém, é o custo social das drogas, principalmente na forma de violência urbana em grandes metrópoles como Rio de Janeiro, que mais afeta as pessoas. Nas favelas, por exemplo, os traficantes encontram não somente refúgio, como também mão-de-obra em jovens pobres e sem outras opções de emprego.

Cartéis
Todos estão de acordo a respeito dos danos que os entorpecentes provocam na saúde humana e as mazelas que causam à família e à sociedade. Mas não há consenso sobre como enfrentar o problema.

Os Estados Unidos gastam cerca de US$ 40 bilhões anuais (R$ 87,5 bilhões, três vezes o orçamento da cidade de São Paulo deste ano) no combate ao tráfico de drogas, enquanto a União Européia investe em tratamentos médicos aos usuários e adota uma política mais liberal.

Ambas as estratégias falharam em reduzir o consumo doméstico (são os maiores mercados consumidores do mundo) e a produção em países asiáticos e latino-americanos, bem como em acabar com o tráfico global.

A campanha contra as drogas nos Estados Unidos é um caso exemplar. O país, que responde por metade da cocaína consumida em todo o mundo, investiu bilhões de dólares na Colômbia, maior produtor mundial da droga. Nos anos de 1990, conseguiu desmantelar os cartéis de Medellín e Cáli, que controlavam o cultivo, refino e distribuição do entorpecente. Com isso, transferiu o crime para o México, onde disputas entre cartéis já mataram 6.300 pessoas no ano passado.

Maconha
A Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, que reúne 17 políticos e intelectuais, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Ernesto Zedillo (México) e César Gaviria (Colômbia) e escritores como o peruano Mario Vargas Llosa e o brasileiro Paulo Coelho, propuseram em fevereiro deste ano uma alternativa ao modelo proibitivo norte-americano. Ele se baseia em três ações:

# Considerar o consumo de drogas como um problema de saúde pública, não de polícia.
# Reduzir a demanda por meio de campanhas educativas e prevenção.
# Voltar os esforços repressivos ao crime organizado, que inclui corrupção e lavagem de dinheiro.

Essas ações incluem uma proposta polêmica de descriminalização da maconha, considerada uma droga com feitos nocivos similares ao tabaco e álcool e menores que os provocados pela cocaína e a heroína, por exemplo.

Hoje, a posse de droga é considerada crime no Brasil. De acordo com a Lei 11.343, de 2006, quem for detido com entorpecente para consumo pessoal está sujeito a penas de prestação de serviços à comunidade ou medida educativa. Já para o trafico são previstas penas de 5 a 15 anos de prisão, que aumentam em casos envolvendo quadrilhas.

Na maioria dos países europeus, no Canadá e na Austrália, o uso de maconha não é considerado crime. Em Portugal, Espanha e Itália, por exemplo, os usuários detidos com pequenas porções podem, no máximo, receber advertências ou pagar multas.

No caso de Portugal, o governo descriminalizou o uso e posse de heroína, cocaína, maconha, LSD (ácido lisérgico) e outras substância ilícitas. O motivo era o alto número de pessoas infectadas e vitimadas pelo vírus HIV (transmitido por meio de seringas contaminadas usadas para drogas injetáveis, como a heroína). Como resultado, o número de mortes por overdose caiu de 400 para 290 ao ano, e o de soropositivos, de 1.400 para 400.

Na Argentina, a Suprema Corte deve julgar em breve a suspensão da lei que proíbe o porte de entorpecentes para uso pessoal. O principal argumento do governo, que defende a medida, é que é muito mais barato para o Estado tratar um dependente do que arcar com os custos de processo judicial e prisão. O país ocupa o terceiro lugar entre os consumidores de cocaína no mundo. No México existe um projeto semelhante, mas a resistência é maior.

Prós e contras
Mas será que descriminalizar é a solução? É importante enfatizar que nem todos que são a favor da descriminalização das drogas defendem a legalização. São duas coisas diferentes.

No primeiro caso, as substâncias ilícitas continuam proibidas, com a diferença de que os usuários deixam de responder a processos criminais, somente quem vende. Já na legalização, não somente o uso como também a produção e a venda passam a ser legalizadas. Neste caso, as drogas seriam taxadas e controladas pelo Estado, em suas especificidades, da mesma forma que ocorre hoje com o tabaco e o álcool.

Nas duas frentes - legalização e descriminalização - a ideia é tornar a droga um problema de saúde pública, deixando de onerar os governos na repressão ao narcotráfico e manutenção de penitenciárias superlotadas.

O principal argumento favorável à legalização é que a proibição alimenta o crime organizado, sem resultados efetivos na redução do consumo. A sugestão é que os recursos sejam direcionados ao tratamento médico dos dependentes e à prevenção por meio de campanhas educativas.

Por outro lado, há dúvidas a respeito da capacidade do governo brasileiro, por exemplo, de criar uma rede de atendimento, principalmente em regiões mais carentes que hoje não dispõem sequer de atendimento médico básico. E vale ressaltar que, apesar de vários países terem aderido à descriminalização (de uma ou mais substâncias), nenhum ainda deu um passo em direção à legalização.

Além disso, opositores da descriminalização argumentam que a liberalização iria tornar drogas como a maconha mais acessível, aumentando a demanda e o número de dependentes, assim como os crimes associados à dependência química, como roubos e homicídios.

O debate continua. A novidade é que, cada vez mais, nações reavaliam suas políticas em busca de melhores resultados.

Saiba mais

* Relatório final da Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia. Disponível para download gratuito em Drogas e democracia.
* Traffic (2000): filme que mostra a cadeia do tráfico (da produção até o usuário final) na visão do chefe da operação antidrogas americana, cuja filha é viciada, um policial mexicano, dois agentes do governo infiltrados e um traficante. Ganhou quatro Oscars.

* José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.

Charles Darwin



Passados 150 anos, teoria da evolução ainda é tema de intensos debates
José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

No bicentenário de nascimento e 150 anos de publicação de "A Origem das Espécies" (1859), as ideias do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), expostas em sua mais famosa obra, o mantém mais atual e controverso do que nunca.

Porque, afinal de contas, ainda hoje boa parte da humanidade é relutante em aceitar algumas conclusões da teoria da evolução, que teve em Darwin seu maior expoente, e o quanto desta teoria contribuiu para mudar nossa visão de mundo?

Por trás de erros de interpretação - os mais comuns dizem que o homem evoluiu do macaco, que na Natureza só os mais fortes sobrevivem e que as espécies evoluem para estágios superiores - e debates acalorados com religiosos, a teoria da seleção natural, que explica a evolução das espécies, se mostra notavelmente simples.

Darwin trabalhou a teoria ao longo de 20 anos, após a famosa viagem a bordo do navio "Beagle". Durante a expedição, que durou cinco anos, coletou espécimes de plantas e animais, principalmente nas Ilhas Galápagos. Ele receava a divulgação do material devido a uma eventual repercussão negativa por parte da sociedade puritana.

Mas, em 1858, ao saber que seu colega Alfred Russel Wallace (1823-1913) havia chegado a resultados semelhantes, Darwin superou a insegurança e publicou, no ano seguinte, "A Origem das Espécies Por Meio da Seleção Natural". Com isso, pode desfrutar dos créditos pela descoberta.

Seleção natural
De acordo com a teoria da seleção natural, todas as espécies geram descendentes, aos quais transmitem traços hereditários. Esses descendentes, entretanto, não são cópias idênticas, mas comportam variações genéticas.

Como nem todos sobrevivem em um ambiente de recursos limitados, aqueles mais adaptados ao meio tem mais sucesso em repassar os genes a gerações futuras, por meio da reprodução. Num prazo longo o suficiente, esse critério seletivo faz prevalecer indivíduos dotados de características que melhor o acomodam à Natureza, provocando a evolução da espécie.

Um exemplo simples é imaginar uma população de bactérias. Dentre elas, um grupo é naturalmente mais resistente a determinado antibiótico. Como esse grupo tem mais chances de sobrevivência, produz mais descendentes, até que a população seja formada por bactérias resistentes ao antibiótico.

Em resumo, há uma variação genética de uma geração a outra, que ocorre em determinada população, e o ambiente seleciona os indivíduos da espécie com os traços mais adaptáveis.

Genética
Na época de Darwin existiam poucos recursos para explicar exatamente como ocorrem as mutações genéticas que são selecionadas na interação com o meio ambiente. A redescoberta das leis da hereditariedade derivadas dos experimentos de Gregor Mendel (1822-1884), a partir de 1900, ajudou a entender melhor as engrenagens da evolução.

Hoje, com os avanços na área da genética, sabemos que as mudanças aleatórias ocorrem no DNA e que elas, na maioria das vezes, não trazem vantagens evolutivas ao organismo, podendo mesmo ser prejudiciais.

Um ponto importante a se destacar é que evolução não é sinônimo de progresso. Darwin foi criterioso e em seus textos não há uma linha sequer a respeito de melhoria das espécies (o que não significa que, em alguns casos, isso possa de fato ocorrer). Tal interpretação foi dada por Herbert Spencer (1820-1903), um notório filósofo evolucionista da época.

Ser mais bem adaptado não significa ser melhor ou mais desenvolvido. Animais simples como bactérias, por exemplo, são mais bem sucedidos que o homem em termos evolutivos.

Macacos
A seleção natural não explica somente mudanças ao longo do tempo, mas também o aparecimento de novas espécies. Segundo a teoria, todos os seres vivos descendem de um organismo primordial e se diversificam no processo evolutivo.

Em "A Origem das Espécies" Darwin evitou tratar da evolução humana. Faria isso mais de dez anos depois com a publicação de "A Descendência do Homem" (1871), encorajado pelos trabalhos de Thomas H. Huxley (1825-1895), o maior defensor de sua obra. No livro, ele afirma que os parentes vivos mais próximos do homem são gorilas e chipanzés. Foi o bastante para ser ridicularizado em jornais ingleses.

A coleta e registro de fósseis, bem como análises de cadeias de DNA, comprovaram a tese do naturalista. A ciência sabe, hoje, que o ancestral mais remoto do homem viveu na África há cerca de sete milhões de anos.

Porém, faltam peças no quebra-cabeça da linhagem humana. A árvore genealógica do hominídeo não é linear, pelo contrário, comporta diferentes ramos que não se desenvolveram. São nove espécies diferentes e outras tantas ainda desconhecidas, como aquela que há milhares de anos originou homens e macacos.

Por esta razão, é um erro dizer que descendemos dos macacos. Na verdade, temos descendentes em comum.

Deturpações
Outras leituras equivocadas deram origem, no final do século 19, ao chamado darwinismo social, que propunha explicar o comportamento dos indivíduos em sociedade por intermédio da seleção natural.

O conjunto de teses pseudocientíficas serviu para compreender desde uma suposta inferioridade racial até tendências criminosas, além de justificar a competição acirrada no mercado capitalista, onde "somente os mais fortes sobrevivem". Nada mais estranho ao que Darwin propunha com a teoria da evolução.

Talvez a mais desastrosa apropriação da obra darwinista tenha sido a eugenia, proposta pelo cientista britânico Francis Galton (1822-1911), primo de Darwin, como método de aperfeiçoamento genético de raças pela seleção artificial - basicamente, casamentos arranjados entre indivíduos considerados mais inteligentes, fortes e saudáveis. Os nazistas usaram técnicas de eugenia em programas de limpeza étnica durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Mais recentemente, surgiram correntes mais científicas, como a sociobiologia, nos anos de 1970, e a psicologia evolutiva, nos anos de 1990, apesar de também serem muito criticadas pelos evolucionistas.

Criacionismo
Atualmente, o maior adversário da teoria da evolução de Darwin é o movimento criacionista". Os criacionistas se opõem ao ensino do darwinismo nas escolas desde os anos de 1920 nos Estados Unidos, pelo fato das descobertas contrariarem dogmas religiosos.

Em sua última versão, propuseram a teoria do "design" inteligente para tentar provar a existência de uma inteligência superior (que pode ser Deus) orientando a evolução das espécies, ao invés do mero acaso de mutações genéticas.

Os criacionistas argumentam que o pensamento darwinista é incoerente e está em crise (o que não é verdade). Além disso, dizem que, democraticamente, a hipótese do "design" inteligente deveria fazer parte dos currículos escolares, ao menos como teoria alternativa.

A mensagem de Darwin é incômoda: não somos superiores aos outros seres que habitam este planeta; não caminhamos, necessariamente, para um mundo melhor; e nem somos donos de nosso destino. Aceitar esta lição de humildade talvez seja o caminho para habitarmos o planeta pelos próximos 200 anos.
*José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.